Conflitos: como acontecem os pontos de virada

Um resumo extraído do Livro:

” A Imaginação Moral – Arte e alma da construção da paz”

de John Paul Lederach

John Paul Lederach é um dos maiores especialistas em construção de paz e reconciliação. Professor desta disciplina na Universidade de Notre Dame e do programa de transformação de conflitos Eastern Mennonite University. Tem atuado em mediação de conflitos diretamente em uma gama grande de conflitos internacionais, autor de diversas obras nesta área,

Em ‘A imaginação moral – Arte e alma da construção da paz’ Lederach traz suas reflexões sobre a pergunta “Como transcender os ciclos de violência que enfeitiçam nossa comunidade humana enquanto ainda estamos vivendo dentro deles?” e ele desenvolve a tese que transcender a violência é algo forjado pela capacidade de gerar, mobilizar e construir a imaginação moral.

O livro percorre 4 situações de conflito internacional vividos por ele e que são a base para as reflexões que traz sobre o que chama de Imaginação Moral.  Analisando as questões de transformação apresentadas surge a questão: Como acontecem os pontos de virada que fazem a diferença? Não foram somente as técnicas e a habilidades dos mediadores presentes nos conflitos que fizeram a transformação, aconteceu um momento que trouxe significado e desviou a atenção de aspectos inteiros de uma situação conflituosa prolongada.

Ela chama este momento de ponto de virada que estão impregnados de uma nova vida, que surgem de um lugar aparentemente árido, enraizado nos desafios do mundo real e em relações destrutivas. Ele cita Vicenç Fisas: “Violência é o comportamento de alguém incapaz de imaginar outras soluções para o problema em pauta”.

Simplicidade 4 disciplinas Lederach

O capítulo 4 do Livro, Sobre Simplicidade e Complexidade, reside uma grande chave para esta questão, que trago na minha leitura, buscando parafrasear as palavras de Lederach, dada sua riqueza de análise e reflexão, porém reduzindo o detalhamento para agilidade da leitura.

Começa com a afirmação que a construção da paz é uma tarefa complexa, onde estão presentes vários atores, perseguindo várias ações e iniciativas, em numerosas relações sociais, num cenário interdependente. A forma tradicional que o autor adotava para abordar as questões era mergulhar na sua complexidade, para simplifica-la num segundo nível. A partir do contato de Lederach com Wendell Jones revela-se que a questão é o inverso: Na base da complexidade estava a simplicidade. Então passou a pensar qual seria o grupo central de padrões e dinâmicas que geram a complexidade, pensando numa situação de conflito, passou a pensar na simplicidade como fonte de energia para sair do conflito e não como uma redução da complexidade.

Buscando a essência desta simplicidade Lederach encontra quatro disciplinas, assim chamadas por ele: relacionamento, curiosidade paradoxal, criatividade e risco.

O papel das relações está centrado no reconhecimento da interdependência, na experiência do autor ele declara que nos lugares em que são quebrados os grilhões da violência, encontramos uma raiz central: a capacidade dos indivíduos e comunidades se imaginarem numa teia de relações envolvendo até seus inimigos. Interromper a violência exige que as pessoas adotem uma verdade mais fundamental: aquilo que fomos, somos e seremos surge e assume forma em um contexto de interdependência relacional. Estão por trás desta disciplina a humildade e o autorreconhecimento. Para superação dos padrões exige um ato de confissão: “Sou parte deste padrão. Minhas opções e meus comportamentos o afetam.”. Surge a reciprocidade na constatação que a “qualidade da nossa vida depende da qualidade da vida dos outros. Lederach cita Margaret Wheatley: “nada no universo existe como entidade isolada e independente. Tudo assume a forma de relações, sejam partículas atômicas que compartilham energia ou ecossistemas que compartilham alimento. Na teia da vida, nada que é vivo vive só”.

O autor ressalta a importância de não cair na armadilha de colocar a realidade em compartimentos e categorias de isto ou aquilo, neste sentido faz-se presente a curiosidade paradoxal. No cerne destas duas palavras estão: contínua indagação sobre as coisas e o seu significado, ela busca se aprofundar e é estimulada pelas coisas que não são compreendidas, não se trata de indagação exagerada, mas sim de aprofundamento de significados. O paradoxo sugere ir além do que é inicialmente percebido, vinculando duas verdades aparamente contraditórias na busca de uma verdade maior. A proposta do autor é de suspender o julgamento, evitando saltar para as conclusões imediatas, explorando as contradições apresentadas nos valores de face e de coração. Valor de face é a forma simples e direta sob a qual as coisas aparecem e são apresentadas. Está na forma como as pessoas dizem que as coisas são, com todas as contradições que surgem quando ouvimos diferentes lados da humanidade sofredora. A curiosidade paradoxal começa com um comprometimento de aceitar as pessoas em seu valor de face. O valor de coração investiga onde está enraizado o significado na experiência das pessoas. Eis aqui o paradoxo de aceitar pelo valor de face aquilo que existe, e assumir a jornada rumo ao valor de coração de onde veio aquilo e para onde poderia ir. Esta prática exige uma capacidade de desenvolver e conviver com um alto grau de ambiguidade.

Matthew Fox chama a criatividade de lugar onde se encontram o divino e o humano. Dar espaço para que a criatividade possa emergir requer uma pré-disposição, uma crença que a criatividade humana é possível, que está disponível e acessível, mesmo em cenários onde a violência domina e cria. Necessário cuidar do inesperado e esperar por ele. O que o autor reporta que encontra vez por outra nos pontos de virada e nos momentos em que alguma coisa avança é a visão de que o futuro não é escravo do passado, e que é possível o nascimento de algo novo.

Arriscar é a disciplina que exige coração e alma. Arriscar é dar um passo para o desconhecido sem nenhuma garantia de sucesso ou mesmo segurança, aventurar-se por terras não controladas e nem mapeadas. As pessoas que vivem em cenários de conflito profundamente arraigado enfrentam uma ironia: a violência é conhecida, a paz é um mistério. Isso significa em termos concretos que precisamos entender as implicações mais profundas dos riscos e a sustentação da vocação a longo prazo.

Estas assim chamadas disciplinas são exploradas por Lederach do detalhamento das 4 situações de conflito que traz no livro, mostrando em cada uma delas a capacidade dos participantes se imaginarem em relação de interdependência, pela disposição de assumirem a complexidade e não enxergarem seu desafio como uma polaridade dualística, por atos de enorme criatividade e por uma disposição de arriscar. Os resultados obtidos foram construção e sustentação de iniciativas que resultaram em paz.

 

Elaborado por Fatima Patz

Mediadora de conflitos, coach, consultora de desenvolvimento de equipes e lideranças

Co-autora do livro : Gerenciamento das Partes Interessadas – Como engajar as pessoas em seus projetos

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