Empatia, Simpatia, Autoempatia, Empatia Silenciosa

A empatia é a prática básica que leva à compaixão. Explicar é simples, praticar é desafiador. Trata-se de um exercício de parar, respirar e abrir espaço em nossa mente e coração para perceber a nós mesmos e ao outro em profunda conexão.

Crescemos conversando com nossa mente, ouvindo aos outros e nos preparando para responder, pensando: “O que posso falar para completar?” ou “O que ele diz está errado, preciso corrigir isto”. Outras vezes nossa mente dispara lembranças como “Isso já aconteceu antes, sei que as consequências não serão boas”. Enquanto nossa mente fica bombardeada de pensamentos que nos levam para o passado ou para o futuro, vamos nos perdendo do que está acontecendo no momento. Nos desligamos de nós mesmos e da pessoa com quem estamos conversando.

Segundo KRZNARIC (2015) “a empatia é arte de se colocar no lugar do outro por meio da imaginação, compreendendo seus sentimentos e perspectivas e usando essa compreensão para guiar as próprias ações… A capacidade de empatizar é um dos maiores talentos ocultos que quase todo humano possui… A empatia pode curar relações desfeitas… pode também aprofundar amizades e ajudar a criar outras.”.

Para aprodundar o entendimento do caminho empático, vamos descrever uma cena de um roteiro de um filme como um exemplo. Veja se esta situação parece familiar: Maria, uma criança que normalmente se isola do grupo por se sentir diferente, neste dia, na mesa da merenda escolar, briga com todos os colegas. Reclama do lanche, xinga a todos. Pedro, o professor, aproxima-se para saber o que está acontecendo e Maria joga o lanche nele e sai correndo.

Você está no lugar de Pedro, o que faz? Quais os caminhos que costumeiramente existem para esta situação?

  • Ficar bravo e colocar Maria de castigo, acreditando ser dela toda responsabilidade pelo que aconteceu?
  • Ficar muito chateado, culpando-se por não ter percebido antes a situação e não ser um bom professor.

Suponha que Pedro comente a situação que aconteceu no refeitório, para um colega, como desabafo, e ouça frases como:

  • Que absurdo, como uma aluna faz algo assim?
  • Você deve levá-la para a coordenação
  • Já aconteceu muito pior comigo antes, era uma sopa
  • Não liga, ela é muito revoltada
  • Este trabalho não compensa mesmo, pagam muito pouco pelo que passamos aqui

Muitas vezes, movidos pelo sentimento de solidariedade buscamos ajudar as pessoas que nos contam situações que vivem e que nos tocam. Usamos diversas falas para consolá-las ou sugerir soluções. Em muitas situações as pessoas buscam ou esperam ajuda desta forma e isto não é um problema, você está sendo simpático. Em outras situações, as pessoas querem apenas falar, ter alguém para ouvi-las e não buscam necessariamente que concordem com elas. Precisam apenas ser ouvidas empaticamente, tendo seus sentimentos e suas necessidades acolhidas.

Em situações de conflito como essa, a Comunicação Não-Violenta nos convida a experimentar a empatia, iniciando o processo pelo que chamamos de auto-empatia. Em geral, quando estamos feridos em nossos sentimentos é muito difícil criar conexão com o outro, por isso o primeiro passo para criar empatia com o outro é buscar compreensão de nossos próprios sentimentos e necessidades. No exemplo que estamos estudando, Pedro pode ter ficado furioso, irritado, embaraçado por ser exposto na frente de outras crianças. Nesse turbilhão de emoções, possivelmente não será capaz de compreender profundamente o que aconteceu com Maria.

Vamos utilizar um modelo de mapeamento para que você possa entender melhor os processos de auto-empatia e de empatia, e assim praticar e fortalecer a CNV em você. Comece listando seus sentimentos e suas necessidades. No exemplo estudado, Pedro buscando auto-empatia se conecta com o fato ocorrido no refeitório e busca perceber inicialmente seus sentimentos. Algo como:

Fato: Maria discutiu com colegas e jogou o lanche em Pedro

Sentimentos de Pedro             Necessidades de Pedro


Irritação                                                         

Raiva                                                             

Vergonha  

Respirar e observar se desses sentimentos surgem outros e complementar a lista. O próximo passo, olhando os sentimentos é identificar quais as necessidades que não estão sendo atendidas que se refletem nestes sentimentos. Um exemplo poderia ser:

Fato: Maria discutiu com colegas e jogou o lanche em Pedro

Sentimentos de Pedro             Necessidades de Pedro


Irritação                                              Respeito

Raiva                                                   Reconhecimento dos alunos

Vergonha                                            Harmonia

Mágoa

As necessidades listadas aqui não se relatam a cada um dos sentimentos, algumas necessidades não atendidas podem gerar mais de um sentimento. Trata-se de uma demostração dentro do espaço disponível.

Olhando novamente a lista de necessidades e sentimentos, respirar e validar se contempla tudo o que se passa dentro de você.

Uma possibilidade de autoempatia de Pedro poderia ser que ele se sentiu irritado pois necessita de respeito, ou que Pedro sentiu-se magoado por não perceber o reconhecimento dos alunos pelo seu trabalho e outras possibilidades que a situação possa trazer.

O benefício de reconhecer nossos sentimentos e necessidades é que eles nos ensinam a ter respeito por nós mesmos. Os sentimentos são como botões piscando no painel de um avião: eles indicam qual função está ou não funcionando, e se uma necessidade está ou não sendo satisfeita” – ANSEMBOURG (2013).

Depois de entrar em autoempatia é possível abrir espaço para a conexão com o outro. No nosso exemplo, é hora de Pedro procurar compreender o que poderia estar acontecendo com Maria. O convite é para que Pedro repasse a situação em sua mente e busque entrar em uma empatia silenciosa com Maria.

LASATER (2010) nos ensina que ao fazer empatia silenciosa, direcionamos nosso foco para o que a outra pessoa possa estar sentindo e precisando, sem analisar ou avaliar seu comportamento. Não é o caso de buscar quem está certo ou errado, mas sim de ter consciência de que a outra pessoa está agindo como está agindo apenas como uma maneira de defender suas necessidades, assim como pode estar fazendo Maria, na situação que estamos analisando.

Vamos dar continuidade no modelo de mapeamento que iniciamos, incluindo agora os possíveis sentimentos e necessidades de Maria:

Fato: Maria discutiu com colegas e jogou o lanche em Pedro

Sentimentos de Pedro                     Necessidades de Pedro


Irritação                                                      Respeito

Raiva                                                           Reconhecimento dos alunos

Vergonha                                                    Harmonia

Mágoa

Sentimentos de Maria                        Necessidades de Maria


Raiva                                                             

Impotência                                                     

Desamparo

 

Novamente observando os sentimentos, buscar perceber quais as necessidades não atendidas que podem estar estimulando seus sentimentos e reações, complementando a situação que estamos trabalhando:

Fato: Maria discutiu com colegas e jogou o lanche em Pedro

Sentimentos de Pedro                    Necessidades de Pedro


Irritação                                                      Respeito

Raiva                                                           Reconhecimento dos alunos

Vergonha                                                    Harmonia

Mágoa

Sentimentos de Maria                       Necessidades de Maria

Raiva                                                             Acolhimento

Impotência                                                  Respeito

Desamparo                                                  Amor

Muitas vezes percebemos nos outros os mesmos sentimentos e necessidades que vivem em nós. Se Pedro estivesse diante de Maria podia falar para ela: “Maria percebo que você está com raiva, desamparada, é isto que você está sentindo? Você quer respeito dos seus colegas? ” Poderia também dizer: “Quando você jogou a comida em mim eu fique irritado e embaraçado, como seu professor eu gostaria de respeito e reconhecimento pelo nosso espaço de trabalho”. Tudo pode acontecer a partir deste momento, porém o que não houve foi crítica, acusação ou cobrança, e aqui acontece uma abertura para um novo começo.

Você pode praticar a empatia silenciosa a qualquer momento. Enquanto você está tendo uma conversa ou depois. Para aprender a entrar em empatia, sugerimos que você aproveite todas as oportunidades, buscando entender quais sentimentos e necessidades podem estar escondidos nas palavras e nas ações do outro.

LASATER (2010) orienta que você passe a pensar sobre o que a outra pessoa está tentando dizer – o que está acontecendo com ela, o que é importante para ela, o que está pensando, querendo ou precisando – mas tudo isso silenciosamente. Você pode optar pela empatia silenciosa quando lhe faltar segurança para dizer algo que possa realmente ajudar ao outro ou também quando perceber que a outra pessoa pode não estar disponível e aberta para ouvi-lo. Então você, calado, se conecta com os sentimentos e necessidades do outro e percebe como isso ressoa em você. Importante a sua postura física: olhar nos olhos, perceber a respiração, ficar frente a frente, coração a coração. Naturalmente sua compreensão e compaixão irão criar um estado emocional diferente para lidar com a situação.

“Na CNV, não importa quais palavras as pessoas usem para se expressar, procuramos escutar suas observações, sentimentos e necessidades, e o que elas estão pedindo para enriquecer suas vidas” – ROSENBERG (2006).

À medida que aumentamos nossa consciência e desenvolvemos o poder empático, a própria experiência de nossa vida cotidiana começará a mudar. Inevitavelmente, haverá mais conexão, compaixão e alegria.

Denise Granados

Fatima Patz

Mediadoras e Facilitadoras de Comunicação não Violenta

 

Bibliografia

ANSEMBOURG, Thomas D’ – Deixe de ser bonzinho e seja verdadeiro; Rio de Janeiro: Sextante, 2013.

KRZNARIC, Roman – O poder da emparia: a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo; 1 ed. – Rio de Janeiro: Zhar, 2015.

LASATER, Ike. – Words that work in Business – CA: Puddle Dancer Press: 2010.

ROSENBERG, Marshall B. – Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais . –  São Paulo: Ágora, 2006.

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