Introdução à Comunicação não Violenta

Marshall Rosenberg, psicólogo norte-americano crescido num bairro turbulento de Detroit, interessado em novas formas de comunicação para criar alternativas pacíficas que amenizassem o clima de violência com a qual conviveu, desenvolveu, divulgou e aplicou em diversos países, há mais de 40 anos, o modelo da Comunicação não-violenta – CNV.

A abordagem CNV surgiu da prática em busca da paz pela não violência, conforme propagada por Mahatma Gandhi, o grande defensor do princípio da não agressão, na forma não violenta de protesto como um meio de revolução.

A intenção da comunicação não violenta é restabelecer a conexão entre as pessoas, e a base dela é exercitar a empatia e a autenticidade, cujo foco estão nos sentimentos e nas necessidades de cada um. Adiciona-se a estes fatores a atenção: estar no momento presente, no “aqui e agora”. As palavras podem apoiar e acompanhar o processo, mas a qualidade e a eficiência da empatia e da autenticidade acontecem na presença e na intenção, na atenção e no foco – não das palavras “certas”.

ROSENBERG(2006) estruturou a CNV em 4 passos que ajudam a despertar para uma nova forma de olhar e perceber a si mesmo e o outro. São eles:

  1. Considerar os fatos concretos que estamos observando;
  2. Perceber como nos sentimos em relação ao que estamos observando;
  3. Compreender as necessidades, valores, desejos que estão gerando nossos sentimentos;
  4. Pedir ao outro as ações concretas para atender nossas necessidades.

OBSERVAÇÃO

O primeiro processo da CNV, é a descrição da situação, o fato, o que vejo, ouço ou lembro sem julgar, sem acusar.

Nossa formação cultural influencia na maneira de nos comunicarmos, tanto com nós mesmos quanto com os outros. Independente da maneira como nos expressamos, através da empatia, exercitamos enxergar a necessidade por trás das palavras. Por vezes a nossa comunicação é focada em avaliações, em analisar o outro, decidir o que é certo ou errado, julgar, rotular, condenar, classificar as pessoas como normais ou anormais, sem perceber como os pensamentos ou interpretações são influenciados pelo nosso modelo de ver o mundo, e podem não corresponder às intenções dos outros, e em muitas situações atribuímos como fatos as interpretações das cenas que vemos.

Alguns exemplos:

  1. João estava com raiva de mim sem nenhum motivo. O que leva a deduzir que ‘João estava com raiva’? Qual o comportamento observado? Porque estava com ‘raiva de mim’? São deduções automáticas que fazemos a partir de nosso histórico, da convivência que temos no nosso dia, de como fomos aprendemos pela nossa vida. No entanto para uma outra pessoa, com outras bases culturais, possivelmente haveria uma outra interpretação da “expressão da raiva”. Um exemplo de observação neste caso, relatando o que foi visto, poderia ser: João bateu na mesa com os punhos fechados;
  2. José frequentemente deixa sua mesa desarrumada. O que é desarrumada para mim, será que é para José? Ele consegue encontrar as coisas que precisa? Outra palavra que também sugere interpretação é frequentemente, quanto é frequentemente? Na Comunicação Não Violenta, sugere-se a utilização de uma linguagem mais precisa como: Esta semana José deixou três vezes seu material de trabalho por todo o espaço da mesa.

Os julgamentos que emitimos geram impactos em quem escuta, e o grau deste impacto determinará a sequência e qualidade do diálogo, podendo aproximar, distanciar e ainda gerar conflito.

Alguns cuidados sugeridos para reduzir efeitos negativos na comunicação: evitar generalizações como nas frases “Ninguém faz a lição de casa com cuidado” ou “Os brasileiros não chegam na hora nos compromissos” será que todos são assim? Como se sente quem faz a lição ou quem é pontual? Outra atitude a ser evitada é a de estabelecer comparações entre pessoas, por exemplo “Maria é muito melhor esportista que Aparecida” como Aparecida irá se sentir, será que ficará estimulada para praticar esporte? Como elas sabem no que uma é melhor que a outra? Neste caso é importante utilizar uma expressão clara que denote os critérios usados, como exemplo: “Maria teve aproveitamento de 100% nos seus saques nas três últimas partidas”, assim as pessoas que ouvem e a própria Maria sabem qual o critério utilizado.

SENTIMENTOS

O segundo processo da CNV trata da nossa emoção em relação a um fato ou estimulo externo, diz respeito as reações que acontecem em nós quando observamos ou vivenciamos uma situação por exemplo: ansioso, assustado, confuso, desapontado, desconfiado, frustrado, impaciente, irritado, magoado, surpreso, triste, alegre, entusiasmado, animado, eufórico, curioso e assim vai. Os sentimentos expressam-se em movimentos que acontecem no nosso corpo e nos colocam em atitudes de colaboração ou de confronto, podendo nos paralisar.

Temos dificuldade de acessar nossos sentimentos, muitas vezes não os identificamos, outras vezes não os demonstramos, nosso repertório para descreve-los é restrito, e muitas vezes não os acessamos internamente até por não sabermos como lidar com eles, com nossas reações e daqueles ao nosso redor.

Existe uma outra faceta muito empregada na nossa comunicação que consiste em disfarçar julgamentos em emoções, que chamamos aqui de não sentimentos. Exemplo: ‘Sinto que sou uma péssima nadadora’. No caso a pessoa está avaliando que não nada como esperava, talvez interprete que as pessoas estão avaliando seu desempenho, mas os sentimentos dela podem ser: tristeza, frustração, amargor, desilusão, entre outros.

Contudo, os sentimentos são os grandes sinalizadores do que se passa conosco, eles são a chave da porta interna em busca da autenticidade e empatia.

Trecho da música “Socorro” de Arnaldo Antunes

Socorro, não estou sentindo nada.

Nem medo, nem calor, nem fogo,

Não vai dar mais pra chorar

Nem pra rir.

Socorro, alguma alma, mesmo que penada,

Me empreste suas penas.

Já não sinto amor nem dor,

Já não sinto nada.

Socorro, alguém me dê um coração,

Que esse já não bate nem apanha.

Por favor, uma emoção pequena,

Qualquer coisa.

Qualquer coisa que se sinta,

Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.

Sentimentos: um vocabulário em construção

desenho de sentimentos

 

NECESSIDADES

O terceiro processo, proposto por ROSENBERG(2006), é a base da vida, está ligada aos nossos valores, nossa realização, aquilo que tornará nossa vida enriquecida. Tudo que fazemos ou falamos, tem como objetivo atender nossas necessidades. Quando temos sede procuramos algo para beber, quando nos sentimos cansados, dormimos para restaurar nossas forças, quando estamos sozinhos, por vezes queremos o contato ou a presença de outras pessoas. Necessidades são universais e básicas do ser humano. Podem ser classificadas de várias formas, abaixo trazemos o modelo adotado na abordagem da CNV, e alguns exemplos de necessidades, não exaustivo, para facilitar o entendimento:

Autonomia: Escolher seus próprios sonhos e objetivos e como realiza-los;

Celebração: celebrar a vida e os sonhos realizados;

Integridade: autenticidade, autovalorização, significado;

Interdependência: aceitação, amor, apreciação, compreensão, consideração, confiança, empatia, respeito, compaixão, proximidade;

Lazer: diversão, riso;

Comunhão espiritual: beleza, harmonia, inspiração, ordem, paz;

Necessidades Físicas: abrigo, água, alimento, ar, descanso, toque, movimento.

Em muitas situações, as pessoas confundem estratégias com necessidades, por exemplo: Eu necessito que você lave a louça. Quando a necessidade está vinculada com uma ação do outro estamos falando de estratégia e não necessidade. A necessidade é algo interno, aquilo que realmente é importante para a pessoa, neste caso talvez seja um ambiente limpo, ou de querer descansar após um dia cheio, e a estratégia seria pedir ajuda a outra pessoa para lavar a louça, poderia ter outras soluções conforme sua necessidade: comprar uma máquina de lavar louça, ou deixar a louça para o outro dia. O pedido poderia ser feito colocando sua necessidade com melhores chances de ser atendido. Exemplo: “Depois de um dia cansativo, eu não tenho disposição para lavar a louça e necessito que o ambiente esteja limpo para iniciar o dia de amanhã melhor. Você poderia me ajudar lavando a louça? ” Pode ser que não consiga ser atendida, porem proporciona uma abertura na comunicação, mudando o foco dos erros próprios e do outro para as necessidades de todos.

As necessidades atendidas ou não são o disparador dos nossos sentimentos, nesta prática aprendemos que os outros não são responsáveis pelo que sentimos. Eles podem gerar os estímulos que cutucam nossas necessidades, mas são as necessidades atendidas ou não atendidas que geram nossos sentimentos. Da mesma forma atende-las é uma questão de estratégia de cada um e pode ter várias opções não dependendo exclusivamente de outras pessoas ou uma pessoa específica. As necessidades de uma pessoa não geram conflitos com as de outra e, quando baseadas na autenticidade, não serão contestadas. Não podemos discordar da necessidade de paz, liberdade, criação, respeito, reconhecimento etc. As diferenças que acontecem estão nas estratégias que usamos para atender as diferentes necessidades.

PEDIDOS

O último processo é realizar pedidos que sejam concretos, claros, viáveis para atender as nossas necessidades. Podemos fazer pedidos para uma pessoa ou para nós mesmos.

Quando fazemos um pedido, estamos tentando buscar a satisfação das nossas necessidades não atendidas naquele momento. LASATER (2009) destaca a importância que os pedidos sejam feitos no presente, que sejam concretos e possíveis de serem realizados. Um exemplo seria: “Você está disposto a arrumar o material do treino nos próximos cinco minutos?” Ou “Você poderia me dizer agora se pode e quando consegue arrumar o material do treino?”. Essas frases são solicitações porque não só referenciam o presente, mas também pedem algo que pode ser feito e, de certa forma, medido pelas partes envolvidas. Ambas as pessoas saberiam quando o pedido foi cumprido. Uma distinção importante neste aprendizado é a diferença entre um pedido e uma demanda. Muitas vezes a única maneira de você saber quando está fazendo uma demanda em vez de um pedido é avaliando o que você faria (ou pensa que faria) se a outra pessoa dissesse “não” ao seu pedido. Para fazer um pedido verdadeiro, precisamos permanecer abertos ao resultado e aceitar que a outra pessoa diga não.

Colocando os passos em movimento:

 

Quadro Passos Exemplo CNV
O quadro a seguir demonstra a visão deste modelo:

Circulo descritivo da CNV

“Autenticidade é a prática diária de abandonar quem nós pensamos que devemos ser e abraçar quem somos” Brené Brown.

Esta abordagem contribui para a interação das pessoas, desenvolvendo a presença plena na linguagem, com o desafio de promover a mudança do foco nos erros próprios e do outro, culpado e inocente, vítima e algoz, busca-se um lugar de possibilidades de necessidades atendidas, que como diz ROSENBERG (2006) possam enriquecer a vida de todos.

Quando nossos sentimentos e necessidades verdadeiramente se tocam, revela-se o milagre da vida, onde as pessoas se reconhecem e exercitam o diálogo.

Marshall Rosenberg, no vídeo “Vision of the Future” (disponível em youtube) menciona que uma agressão é a demonstração trágica de uma necessidade não atendida. É trágica pois amplia a separação do outro, gerando um círculo de ação e reação que distancia da possibilidade de enriquecer a vida.

Comunicação não violenta possibilita mudanças estruturais da forma de encarar e organizar as relações humanas e nas questões de responsabilidade, minimizando a probabilidade de agressões ou dinâmicas de pessoas ou grupos opressores. Viabiliza a construção, conexão e sentimento, a partir do próprio modo de agir junto ao outro, é um processo conhecido por sua capacidade de inspiração humanitária e solidária, um modo de conviver consigo com o outro e alinhados ao bem comum.

Fatima Patz

Rose Correa

Mediadoras e Facilitadoras de Comunicação não Violenta

 Bibliografia

LASATER, Ike K.; LASATER, Judith H. – What we say matters – Practicing nonviolent Communication – USA: Shambhala: 2009.

ROSENBERG, Marshall B. – Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais . –  São Paulo: Ágora, 2006.

 

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